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Entrevista Revista Grande Consumo

Ana Armando

Com o claim “healthy pleasure”, a Nolita entrou no mercado nacional como uma marca de produtos para pequenos-almoços e lanches saudáveis. Desde granolas a misturas para panquecas, mas também com um adoçante natural e uma fibra prebiótica, tudo para criar “um pequeno-almoço saudável para gulosos”. Em entrevista à Grande Consumo, Fernanda Vasconcelos, fundadora da Nolita, conta a história deste projeto, que nasceu em 2019 na sua própria cozinha e que já chegou às prateleiras das lojas em Portugal.

Grande Consumo – Como nasceu a marca Nolita? O que inspirou a criação deste projeto dedicado aos produtos para pequeno-almoço sem açúcar?

Fernanda Vasconcelos – A marca nasceu de uma necessidade minha, pois decidi mudar radicalmente a minha alimentação, há uns anos, após a leitura de vários livros e estudos sobre o tema, e me deparei com grandes dificuldades em encontrar produtos deliciosos para pequenos-almoços e lanches que fossem compatíveis com os meus novos objetivos de reforçar a ingestão de proteínas e fibra e reduzir drasticamente a ingestão de açúcar.

Sou muito gulosa e não estava disposta a abdicar do sabor em prol da saúde, pelo que comecei a experimentar receitas e a inventar, adicionando e retirando ingredientes diversos, até chegar a receitas maravilhosas de pão, granolas, barritas, bolachas, etc. Nessa altura, não imaginava a possibilidade de me vir a dedicar a isto em termos profissionais, no entant,o percebi logo que podia haver uma oportunidade de mercado quando vi as reações dos meus colegas aos lanches que levava para o emprego.

Anos mais tarde, senti que já não tinha desafios a nível profissional e continuava com imensa vontade de aprender coisas novas e enfrentar novos desafios, fora da minha zona de conforto, pelo que deixei o lugar de diretora de marketing num grupo de empresas tecnológicas para me dedicar de corpo e alma a este projeto, a Nolita.

Fernanda Vasconcelos, fundadora da Nolita

GC – Quanto tempo demorou a preparar este projeto? Quais foram os principais desafios a superar?

FV – No primeiro ano, mantive o meu emprego a meio tempo para poder fazer alguns testes e validar a oportunidade de mercado. Em nove meses, essa validação ficou concluída, as embalagens desenvolvidas, o produto e a loja online lançados. Produzia na Escola de Hotelaria e não tinha escritório nem loja física, pelo que tinha reduzidos custos fixos mensais, o que diminuiu drasticamente os riscos corridos no lançamento.

Pouco tempo depois de lançar o produto, apercebi-me que havia várias oportunidades de melhoria, nomeadamente o prazo de validade era demasiado curto, para permitir trabalhar mercados mais distantes, a embalagem era pouco prática e implicava um trabalho operacional descomunal e que a literacia alimentar é ainda baixa, pelo que seria necessário descomplicar as mensagens da marca para chegar a um nicho de mercado um pouco mais amplo.

O primeiro desafio foi o mais difícil de superar, tendo em conta que envolvia know-how que não tinha nas áreas de produção industrial alimentar. Felizmente, contei com a ajuda de alguns dos maiores especialistas a nível nacional, sempre a título gratuito, ajuda essa sem a qual o projeto não teria prosseguido e que permitiu criar os 10 novos produtos lançados neste verão, todos eles com inúmeras alegações interessantes para o consumidor, como a certificação biológica, a ausência de glúten, a ausência de açúcar adicionado ou aditivos artificiais, os altos níveis de proteína e fibra. Todos os produtos são de origem vegetal e naturais.

GC – A pandemia afetou os planos de expansão da marca?

FV – Sim, a pandemia afetou-nos bastante. Tínhamos acabado de lançar o primeiro produto e estávamos a começar a fazer contactos para vender em lojas biológicas e gourmet, no entanto, a maior parte dos profissionais desta área estava concentrada em adaptar-se à nova realidade e não estava a aceitar a inclusão de novos produtos nas suas lojas, pelo que decidimos focar todos os nossos esforços no desenvolvimento da nova linha de produtos, para podermos fazer um lançamento em grande, assim que os inconvenientes da pandemia não se fizessem tanto sentir.
Conseguimos sobreviver, tendo em conta que os custos recorrentes eram muitíssimo baixos e que conseguimos alguns apoios do Portugal 2020.

GC – Como tem sido a recetividade do consumidor português, tendo em conta a maturidade do segmento de produtos para pequeno-almoço no país?

FV – A recetividade ao primeiro produto foi muito boa, mas estava concentrada em pessoas com literacia alimentar bastante alta e que têm preocupações muito grandes com a alimentação saudável.

Decidimos extremar o nosso posicionamento para conseguir abranger um “target” mais amplo, começando a trabalhar exclusivamente produtos sem glúten e sem açúcar adicionado. Isto permitiu-nos ter uma oferta adequada não só a quem se preocupa em ter uma alimentação saudável, como também a celíacos, diabéticos e pessoas que estão a tentar emagrecer.

Uma das estrelas de vendas é a nossa granola Low Carb, adequada a dietas Keto e Paleo, entre outras, pois abrange um segmento de clientes em franco crescimento que não tem muitas alternativas no mercado.

GC – Como é o processo e, em geral, o que está envolvido em fazer-se granolas e misturas para panquecas?

FV – Os nossos produtos são muito pouco processados, pelo que envolvem processos de fabrico simples, compostos por misturas de ingredientes e, exclusivamente no caso das granolas, colocação no forno. Fazemos o processo todo internamente, desde a escolha dos ingredientes, às misturas e aquecimento dos mesmos, até ao embalamento do produto final, dispondo de algumas máquinas para ajuda na pesagem e selagem das embalagens.

GC – A Nolita utiliza ingredientes de origem local? Como são selecionados os ingredientes a serem incluídos e os fornecedores com quem trabalham?

FV – 95% dos nossos ingredientes são adquiridos a fornecedores nacionais. Os que compramos no estrangeiro não são vendidos nos grossistas portugueses. Os pós de fruta desidratada e a framboesa liofilizada são adquiridos diretamente a um pequeno produtor português. Tentamos comprar a entidades que trabalhem o mais próximo possível do nosso local de produção, pois preferimos favorecer a economia local.

Os ingredientes são escolhidos em função do seu valor nutricional. Procuramos ingredientes naturais com elevadíssima fibra ou proteína e baixíssimos níveis de açúcar. Privilegiamos a agricultura biológica certificada, por garantir a ausência de pesticidas conhecidos pelos seus efeitos nefastos na saúde.

GC – Como é composto o portfólio da Nolita? Têm planeado algum lançamento até ao final de 2021?

FV – Atualmente, temos 10 produtos: quatro granolas, quatro “mixes”# para panquecas, um adoçante natural zero calorias e uma fibra prebiótica.

As granolas, o primeiro produto que desenvolvemos e que serviu para os testes de mercado, estão agora disponíveis em quatro opções: Crunchy (com trigo sarraceno), Nutty (30% frutos secos), Berry (framboesas portuguesas liofilizadas) e Sporty (sem cereais, uma boa opção para quem segue dietas “low carb”, como a Keto ou a Paleo).

Os produtos preferidos dos mais novos são as panquecas Nolita, disponíveis em quatro sabores (Chia, Framboesas, Amoras e Cacau). Estes produtos têm uma característica inovadora, na medida em que são feitos à base de farinha de tremoço, um ingrediente com elevados níveis de proteína e fibra e propriedades prebióticas. Os sabores são obtidos com sementes, fruta portuguesa desidratada em pó e cacau magro, não havendo qualquer adição de sabores artificiais.

Decidimos também disponibilizar o adoçante com que fazemos as granolas e panquecas, pois não só tem zero calorias, como também tem zero açúcar e zero índice glicémico, tornando-o uma excelente opção para diabéticos, pessoas que seguem dietas “low carb” e pessoas que estão a tentar perder peso. Este adoçante é naturalmente obtido através da fermentação do milho.

Por fim, vendemos também uma fibra prebiótica natural, obtida através da raiz de chicória (com 90% de fibra), destinada a quem se preocupa com a diversidade da microbiota intestinal, hoje conhecida como um pré-requisito fundamental para a prevenção de várias doenças graves.
Estes produtos foram lançados no verão e estão a ter vendas muito interessantes, pelo que não pretendemos lançar nada novo até ao final do ano.

No início do próximo ano, vamos ter surpresas que, acredito, irão agradar muito a todos os gulosos que gostariam de se deliciar com iguarias que possam trazer todo o prazer alimentar sem a culpa que, por vezes, está subjacente ao consumo de chocolates, bolos, sobremesas.

GC – Porque foi importante para a marca apresentar o adoçante natural Sweety? É a filosofia de remover completamente o uso de açúcar refinado?

FV – Sim, queremos oferecer produtos que possam dar aos consumidores uma pausa no açúcar, que está presente em praticamente todos os produtos processados à venda no mercado, sejam eles salgados ou doces. O açúcar é um ingrediente com inúmeras propriedades que tem sido bastante usado na indústria alimentar, porque não só dá sabor aos alimentos, como lhes dá textura e prolonga a sua vida útil. O açúcar é um ingrediente altamente viciante, já que estimula a libertação da dopamina, a mesma substância libertada pelo uso de drogas, como a heroína. Esta é outra “vantagem” do uso do açúcar: os clientes têm tendência a consumir mais quantidade dos produtos e a quererem voltar a consumi-los frequentemente.

Infelizmente, o açúcar é bastante nefasto para a saúde, sobretudo ,nos níveis ingeridos pela maior parte dos consumidores. A Organização Mundial de Saúde recomenda que apenas 10% das calorias ingeridas sejam sob a forma de açúcar, no entanto, é muito difícil encontrar produtos para pequenos-almoços e lanches que não ultrapassem fortemente esta percentagem. Para o comprovar, basta percorrerem o corredor das bolachas em qualquer supermercado e contarem o número de produtos com menos de 10% de açúcar. É um exercício interessante.

Assim, decidimos não nos limitar a excluir o açúcar refinado dos nossos produtos. Na verdade, não adicionamos qualquer açúcar – refinado ou não – nem ingredientes que contêm níveis descomunais de açúcar, como o mel, as tâmaras ou as geleias (arroz ou agave). Toda a doçura dos nossos produtos é obtida graças ao adoçante natural que decidimos também vender isoladamente, apelidando-o de Sweety.

GC – Quais são os desafios de apresentarem produtos exclusivamente vegan, integrais e isentos de glúten?

FV – Os produtos vegan são bastante naturais para mim, já que tenho uma alimentação essencialmente à base de plantas. Adicionalmente, como produzimos para pequenos-almoços e lanches, é relativamente fácil excluir ingredientes de origem animal.

Já os integrais complexificam muito o sourcing de ingredientes, já que a oferta de produtos 100% integrais é muito escassa e os mesmos são bastante mais caros. No entanto, este é um pilar fundamental da marca, já que nos recusamos a trabalhar com qualquer hidrato de carbono refinado, tendo em conta que estes são os ingredientes que mais se assemelham ao açúcar, provocando picos de glicémia no sangue e libertação de energia que será transformada em gordura se não for gasta rapidamente.

A isenção de glúten também complexifica o sourcing e aumenta o custo do produto, para além de exigir grande rigor no manuseamento dos ingredientes e produtos finais.

Nolita

GC – Todos os produtos da marca têm certificado biológico. Porque é importante para a Nolita esta garantia?

FV – Sim, todos os produtos têm certificado biológico, já que acreditamos que os níveis de pesticidas presentes na agricultura convencional podem ser nefastos para a saúde. Para além disso, muitos ingredientes biológicos têm uma qualidade superior, em sabor e textura, o que facilmente se comprova, por exemplo, nas frutas frescas.

Esta questão também tem um grande impacto no custo do produto, já que os ingredientes biológicos são bastante mais caros.

GC – Onde é que se pode encontrar a marca Nolita em Portugal? Está disponível em lojas físicas e no online?

FV – Os produtos da Nolita estão disponíveis na nossa loja online, www.nolitafood.com, assim como na loja online do Casal Mistério e em vários marketplaces de produtos nacionais. Podem também ser encontrados em vários mercados biológicos e na oferta de algumas empresas de cabazes biológicos. Estamos também presentes em algumas lojas físicas biológicas e nos hipermercados El Corte Inglés.

GC – Em quantas cidades já vendem no total? Como tem evoluído a marca e qual é a sua estratégia para o mercado nacional?

FV – Em lojas físicas estamos presentes na Grande Lisboa, no Grande Porto e em Braga. Na nossa loja online temos vendas em todo o país. Queremos estar presentes em todas as lojas biológicas e/ou gourmet, pelo que estamos a tentar negociar com vários retalhistas a inclusão da nossa gama na sua oferta.

GC – Há intenção de levar esta marca portuguesa para o mercado externo?

FV – Sim, a exploração do mercado internacional foi nossa intenção desde o momento zero, tendo em conta que a rentabilização de um negócio deste tipo exige uma escala que dificilmente atingiremos apenas com o mercado português, não só porque o nosso país é efetivamente pequeno, mas também porque o público-alvo a que nos dirigimos tem uma representação francamente superior noutras geografias.

Foi exatamente por este motivo que estivemos presentes na Organic Food Ibéria, em setembro, no stand Portugal Bio da Portugal Foods. Estamos atualmente a negociar com várias empresas estrangeiras a colocação dos nossos produtos em Espanha, França e noutros países fora da União Europoeia.

GC – Quais sãos os objetivos quantitativos e qualitativos da Nolita para o segundo semestre de 2021?

FV – Este mês, vamos mudar de instalações, acreditando que vamos, assim, conseguir um aumento substancial da nossa produtividade e capacidade produtiva, para poder reagir mais rapidamente aos picos de procura que vamos tendo. Precisamos de reavaliar a nossa nova capacidade produtiva no novo espaço, para que não seja um “bottleneck” que nos impeça de aproveitar todas as oportunidades de negócio que forem surgindo.

Nesta fase, não conseguimos fazer previsões de vendas, pois estamos a ter um crescimento exponencial desde o início de setembro, mas partimos de uma base muito modesta, pelo que temos que ir percebendo quais os negócios que vamos conseguir manter e quais os clientes novos que vamos conseguir conquistar.

GC – Que previsões fazem para os próximos anos, tanto a respeito da marca como do universo de produtos de pequeno-almoço?

FV – No próximo ano, queremos festejar o primeiro mês com mais de 100 mil euros de faturação. Acreditamos que tal vai ser possível por duas vias: o aumento de gama, que permite incrementar o cesto médio das vendas online e também crescer fortemente as encomendas dos retalhistas e crescer em número de pontos de venda, tanto em Portugal como no estrangeiro.

Acreditamos também que 2022 será o primeiro ano com vendas fora de Portugal em valor superior às feitas internamente.

Quanto ao universo dos pequenos-almoços e lanches, vai continuar a evoluir fortemente. Prevê-se um aumento do número de produtos disponíveis, com grandes apostas nas alternativas vegetais aos produtos de origem animal, nos produtos com impacto na microbiota (pre e probióticos), nos alimentos “free from” e também nos alimentos destinados a quem sofre de algum tipo de doença (celíacos, diabéticos, etc…).


Publicado em Novembro ,11


Autor: Grande Consumo Magazine



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